Dor de barriga, intestino preso, vômitos e diarreia estão entre as queixas mais frequentes nos consultórios de pediatria. Na maioria das vezes são problemas passageiros, mas alguns sinais merecem atenção. Conhecer as doenças mais comuns ajuda a família a observar melhor e a buscar ajuda no momento certo.
O sistema digestivo da criança está em formação: amadurece nos primeiros anos de vida, muda com a introdução alimentar e passa por novas transformações na adolescência. Por isso, sintomas que parecem iguais podem ter causas muito diferentes conforme a idade.
As condições mais frequentes
Constipação intestinal
É uma das principais causas de dor abdominal na infância. A criança evacua com pouca frequência, as fezes são duras ou grandes, e o momento de ir ao banheiro vira motivo de choro ou medo. Muitas passam a “segurar” as fezes, o que piora o quadro. Pode haver escape de fezes na roupa, que costuma ser confundido com diarreia ou desleixo.
Na grande maioria dos casos é funcional, ou seja, não há doença por trás, e o tratamento envolve ajustes na alimentação, rotina de banheiro e, quando indicado, medicação por um período adequado.
Refluxo gastroesofágico
Golfadas são muito comuns nos primeiros meses de vida e, na maior parte dos bebês, melhoram sozinhas ao longo do primeiro ano, conforme o sistema digestivo amadurece. Quando isso acontece sem outros sintomas, chamamos de refluxo fisiológico.
Ele passa a ser uma doença do refluxo quando causa sintomas importantes: recusa alimentar, irritabilidade intensa durante as mamadas, vômitos frequentes, pouco ganho de peso ou problemas respiratórios. Em crianças maiores e adolescentes, pode aparecer como azia e dor no peito.
Alergia alimentar
A alergia à proteína do leite de vaca é a mais comum nos primeiros anos, mas ovo, soja, trigo e outros alimentos também podem estar envolvidos. Os sintomas variam: vômitos, diarreia, sangue nas fezes, cólicas intensas, alterações na pele e dificuldade de ganhar peso.
O diagnóstico precisa ser feito pelo médico. Retirar alimentos da dieta por conta própria pode trazer prejuízos nutricionais e atrasar o diagnóstico correto. Muitas crianças desenvolvem tolerância com o tempo, e isso também deve ser reavaliado com acompanhamento.
Doença celíaca
É uma reação do organismo ao glúten, presente no trigo, na cevada e no centeio. Pode causar diarreia crônica, barriga distendida e baixo ganho de peso, mas também sinais menos óbvios: baixa estatura, anemia que não melhora, cansaço, atraso na puberdade e alterações nos dentes.
A investigação começa com exames de sangue e deve ser feita antes de retirar o glúten da dieta, para não mascarar o resultado.
Dor abdominal funcional
Dores de barriga recorrentes, sem uma doença estrutural por trás, são frequentes em crianças em idade escolar e em adolescentes. A dor é real e pode atrapalhar a escola e a rotina. Estresse, ansiedade, sono ruim e alimentação desregulada costumam influenciar. O papel do especialista é descartar outras causas com segurança e orientar um plano de cuidado.
Diarreia aguda e crônica
A diarreia aguda, geralmente causada por vírus, costuma durar poucos dias. O maior cuidado é com a hidratação, especialmente em bebês. Quando a diarreia se prolonga por mais de quatro semanas, chamamos de diarreia crônica, e é preciso investigar causas como intolerâncias, alergias, infecções persistentes, doença celíaca ou doenças inflamatórias.
Doença inflamatória intestinal
Inclui a doença de Crohn e a retocolite ulcerativa, inflamações crônicas do intestino que vêm sendo diagnosticadas com mais frequência em crianças e adolescentes. Dor abdominal persistente, diarreia, sangue nas fezes, perda de peso, feridas na região anal e atraso no crescimento são sinais de alerta. O diagnóstico precoce e o acompanhamento especializado fazem grande diferença na qualidade de vida.
Sinais de alerta: procure avaliação médica
- Perda de peso ou dificuldade para ganhar peso e crescer
- Sangue nas fezes ou fezes muito escuras
- Vômitos persistentes, em jato ou de cor esverdeada
- Dor que acorda a criança durante a noite
- Diarreia que dura mais de duas semanas
- Febre sem explicação que vai e volta
- Dificuldade ou dor para engolir
- Atraso na puberdade em adolescentes
- Histórico familiar de doença celíaca ou doença inflamatória intestinal
Em caso de sinais de desidratação (boca seca, pouca urina, sonolência excessiva) ou dor muito intensa, procure um pronto-atendimento.
Como é a consulta com o gastroenterologista pediátrico
A consulta começa por uma conversa detalhada com a família: quando os sintomas começaram, como é a alimentação, a rotina de evacuação, o sono e a vida escolar. Em seguida vem o exame físico, com avaliação cuidadosa do peso e da altura nas curvas de crescimento.
Muitas condições são diagnosticadas apenas com essa avaliação clínica. Quando necessário, são solicitados exames de forma criteriosa, sempre pensando no conforto da criança.
Dica para a consulta
- Anote há quanto tempo os sintomas começaram e com que frequência acontecem.
- Se possível, registre como são as fezes (uma foto ajuda) e o que a criança comeu nos dias anteriores.
- Leve a caderneta de saúde da criança e exames anteriores.
Este conteúdo é informativo e não substitui a consulta médica. Cada criança precisa de avaliação individual. Não inicie, suspenda ou altere tratamentos sem orientação do médico que acompanha seu filho.

